3.4.13

Manifestassão Irhealista

Eu ólhu pra vosse
y cei cuándu voss mênt
Nãu éu qi voss fála
é sôbriu qi vosse cênt

Si micê nãu istá duênt
umanament intênd
y naturaument kála

Procurando o nº de assinante

Ah!, tem muitos números incompreensíveis...
O que era pra estar escrito mesmo?
O número?
...
Ah... a Lhasa me desconcentra...
Quantos números tinham uma vida, mesmo?
Bom, você aí não está aqui...
Eu vou sair
Deixa pra lá
Não tem ninguém...
só as pessoas ausentes
e uma morta cantando
Um anjo, mesmo...
um mar de rumores

Eu vou sair pra ver a tarde
até sumirem as cores

Incidente com Pablo Megracko

É meu dever informar que Pablo Megracko caiu no abismo. Mas ele não chegou até em baixo, seu corpo ficou pairando entre as vagas do tempo e o olhar dos pássaros.

Nota sobre o entrevidas

            É que desse jeito não tem o que fazer. Eu sei, João, mas é que se era não dá. E depois acontece que sem daquele jeito, tem uma árvore e um pé de cabra; uma pêra e uma nave. Tente três vezes, quem sabe ele reza. Amanhã o milho vai secar, e a terra sêca não dura. Não, dura como o inverno: sem água, sem sol, sem céu. Ah, João, não tinha problema. É que cansa tanto que às vezes chove. Tinha uma galinha manca, um viveiro, um teto baixo. Umas minhocas circulavam por ali, mas elas não sabiam atravessar a rua.
            Quando escureceu, não quis saber de machado, virou as crianças pra cama e morreu. Acordou cedo, mas não era não, era ainda o João. Saiu com o sapato na mão. Quando voltou, jogou o feijão no colchão e sorriu: caiu um avião. Não!? Agora não, né? Antes era sim, agora não. Agora, se for pra nada, não adianta fazer faxina, as horas não aguentam. João sentou na cadeira e disse: patrão, caiu outro avião, vinte anos e três vezes depois. Agora eles não sabiam se recolhiam ovos ou chamavam a tia do algodão doce. Recolheram os ossos! Tolos.
            Mas não adianta, porque fugir é o sonho das lebres entre o começo e o fim de março. Não queria que terminasse assim, batendo a cabeça nos degraus da escada líqüida. Tem um monte de gás por aí, desliga antes de dormir porque não tem ninguém em volta para apagar o incêndio das massas e dos papéis que estavam em cima da mesa ontem. Eles dormiram cedo; esqueceram cedo da coruja espiando entre os galhos da árvore e o quarto quadrado de vidro superior direito da janela na visão da coruja, na frente da lua, na visão do homem dormindo, na noite clara de azul escuro.
            Vamos, querida, vamos voar.

Enviado por Pablo Megracko, do abismo.

Soulstício

I - O Sonho

Essa noite, eu tive um sonho
no meu sonho tinha medo
um revólver e muito pânico

Os meus amigos estavam lá
do meu lado, me ajudando
E por um incrível esforço
tudo saiu como eu queria
na medida do contexto

No meu sonho não tinha rimas
não tinha harmonia nem música
Porque os dias que seguem
na cidade debilmentada
não têm rimas, harmonia nem música

II - A Crítica

Pobre espírito, homem frouxo
Vim lhe cuspir a sua covardia
Vocês são muitos, e muito pouco
O seu crime não tem poesia

Você está morto, sabia?
E a sua história acaba como uma bomba
A sua matéria prolifera como as pombas
Suja, parasitária e fugidia

Corre!
Porque atrás vem o revólver
que você construiu

Corre!
Mas corre de si mesmo
porque o seu carro
atropelou o seu filho

Pára, infeliz!
Não passa em cima outra vez...
Olha só o que você fez!
É o terror debaixo do nariz

III - O Despertar

E agora acordado quero esquecer
quero esquecer a cidade e o pânico
Quero viajar para dentro e renascer
Quero merecer o corpo momentâneo

Eles sabiam que eu sonharia tristeza
Eles sabiam que eu dormiria abatido
Que eu recuaria montado no perigo
Que eu esqueceria da natureza

É isso que eles querem de mim
Que eu fique paranóico e sem crença
Que eu veja eternamente o fim

Mas eu não me entrego fácil assim
pra polícia, pro dinheiro e pra doença
Minha crença é o presente sem fim

IV - O Soulstício

Agora, daqui, com o coração
vejo o sol fazer o seu trabalho
Vejo a água verter vermelha
abaixo do vôo dos pássaros
envoltos na harmonia da canção

Daqui, homens,
vejo as centelhas da vida
como fogos de artifício
sob o céu que envolve
sobre a terra que abate
entre as vagas do tempo
pelas horas do espaço
resumidas num átimo de eternidade

Daqui, homem, é uma só verdade
É a verdade que você não quer
É a verdade que não existe
É a verdade que não pensa
É a verdade que esquece

É a cidade que clareia
É o sol que incendeia
É a vida que resiste
é o coração que tenta
e à tardinha escurece

Daqui, do instante que cresce,
vejo a vida que acontece
explodindo em grande clarão
e viajando pelo espaço
como luz na escuridão
sem ombro ou regaço
na matéria do vácuo

Aqui, homem, ouve!
é música dos pássaros
é o ritmo dos passos
do universo ancião

Agora encontro me homem!
Mas não só homem...
Descubro me homem
em tempo suspenso
entre o começo e o fim
de uma só batida
Uma só batida de asa de pássaro!
no silêncio do tempo intermediário
na tensão em que tudo se acaba
e na espera de que tudo renasça

Aqui estou, homem!
entre a última e a nata
batida do coração

Solstício de verão

A Grande Diferença

Algumas pessoas pensam
outras pessoas choram
Algumas pensam e choram

Algumas pessoas dançam
outras pessoas cansam
Algumas sentam e oram

Muitas pessoas trabalham
outras tantas acabam
Algumas pessoas imploram

Há pessoas que pensam
dançam, cantam e choram
sentam, trabalham e oram

Há pessoas que andam e não andam
que moram, não moram e transitam
que buscam tudo e na noite encostam

Há pessoas que procuram solução
para os problemas do coração
E há pessoas que o exploram
em cada sístole e cada expansão

Há pessoas que vivem de desejos
outras vivem de satisfazê-los
Há as que entendem esta diferença
e que vivem da verdade intensa

Mas há pessoas descaradas que ignoram
e doentias anunciam a sua sentença

Experiência (Visões da última estrada)

Devolvo o livro neste estado
mas o trago bem-aventurado
Do cais do porto da esperança
trago notícias da terra desolada

Trago notícias da meia-noite
no Rito de quem ainda não foi
Trago notícias divinas
Que o diabo não perdôe:

Carrego na miragem dos olhos
as lágrimas dos mascotes de Midas

Poema de fim de noite

... e na tela escura do velho computador
eu escrevo as minhas últimas palavras
desta noite

Era futura presenteia remota dor
neste poema que agora me encara
feito flor

Desabrochando por um pouco de amor
a minha flor consome a Lua clara
e exala o aroma da sua prata
e conserva nas pétalas a cor
da saudade do Sol que se foi

Bonita esperando do dia o calor
pétala de prata na brisa da estrada
traz bonança e serena calma
pra esperar da estrada o sabor
do teu beijo a caminho da minha alma...

Era do Prazer

Trabalhei o dia inteiro
doze horas
sem prazer
Quando acabei
virei um copo de cerveja
e senti prazer
Mas
engraçado
Não era atrás
do copo de cerveja
que eu estava
Era
do prazer

A Visita do Anjo

Do baixo das profundezas dos subterrâneos mórbidos
veio um sujeito falando do que eu devia ter feito...
Ele dizia que eu o havia criado com métodos sórdidos
mas ainda não estava me sentindo satisfeito

Então o ser, um homenzinho deformado até outro estado
declarou desse jeito o meu longo e sangrento fracasso:

-- Eu vim do decrépito intestino do organismo que você construiu
com essas suas duas mãos
dizer que essa que você agora viu
é a cara do seu coração

E penetrou na escuridão anil

Dia de Iemanjá

E eu choro
lágrimas de mar
salgadas nos poros
do paladar

Ninguém te quer
agora
meu amor
é só um tal de morreu
vai matar

Novos tempos

O Mar
já não é mais o mar
é a praia
pra bronzear
os vermes do tempo
na pele de arder
na tarde perdida
Os vermes do Sol!

Você é a cura
do meu calor
sempre a crescer

Volta pro mar
meu amor
não vá
esquecer-se disso
Volta pro mar!
Aqui vão
te perder
te roubar
te vender
Não conseguem
te enxergar

Vai, meu amor
volta pra lá
Volta pro Sol
que longe um dia
já foi seu lugar

Mas o Sol
é
longe
você vai ficar...

Não vai...
Não!
não venha pra cá

Fica!, Sereia
Volta pro Mar!

O Chefe

Ô, pobre homem
quem te fez assim tão frustrado
de olhos vazios e coração calado?
Quem são os ratos que te roem?

Cuidado com o dinheiro
que desse seu jeito
ele vai te matar o corpo
E se não matar o corpo
mata a alma primeiro
é certeiro!

Mas você não precisa ter cuidado
Não, você já está engajado
Você já não olha nos olhos
quando quer bancar o sábio
Ô, pobre homem

Você me deixou desempregado
Mas tudo bem, eu arrumo trabalho
E você, arruma outros olhos
outra mulher, outra casa?
Outro caso?
E o seu filho?
Ô, homem

Hoje, você me deixou sem bebida
Mas tudo bem, tenho a sorte do meu lado
É só um bem bolado e a noite me acalma
E você, onde vai arrumar outra vida
outro corpo, outra alma?

Coisa de Gente Grande

Quando nasci
e um pouco cresci
e olhei o mundo
tudo podia imaginar:
Voar
A velocidade
A luz
A casa dos vampiros
que ouviam o vento
A mágica
O tempo
A noite
entre árvores
nas janelas
Poesia
A lua
no universo
de estrelas
Estrelas
elas
meus versos

Agora,
o que eu não esperava
debaixo das estrelas
do tempo
da mágica
do vento
do universo negro
era que
dentro dos meus versos
haveria inimigos
da minha ingenuidade
Que entrariam
no meu dia a dia
e envenenariam
a minha poesia
com gestos desconexos
e imaginação fugidia
Detentores
da mais vigorosa
ignorância
que se escondia
sob os meus olhos
de criança
E diziam que isso
era coisa de adulto
coisa do futuro
futuro...

E agora, cavalheiros
agora tudo é passado
envelheci cinquenta anos
em vinte e quatro
E descobri a coisa
que diriam os anos
do meu espaço:

Aquela coisa de adulto
que me traria o futuro
depois que caíssem as estrelas
e a lua nascesse sinistra
e o vento tornasse de susto
e a mágica surgisse negra
e o universo explodisse em cálculos
e os vampiros revelassem os homens...

Aquela coisa que me diriam os anos
Aquele homem que virou vampiro
na cidade pálida pelos cantos
Que escondia nos seus suspiros
a frustração enrustida de uma criança
como um rio sem curso
que deixou de ser criança pra virar adulto
sem o recurso do desejo
morto num desesperado beijo...

Aquela coisa de criança que viu fantasma
despertou falecida na calçada
Foi aquele negócio de gente grande
que se julgava mais que a noite calada...

E depois de arrependida
facada na esperança
aquela coisa de gente grande
que na verdade sem segredo
morre de medo de escuro
e de travessura de moribundo
revelou-se

rancorosa
e adulta criança
a desferir contra o mundo
a sua reação contida
de discreta e violenta
vingança

Coisa Besta

Tarde brilhante!
Fria!
Genial, essa tarde
Esse sol também... é genial!

Deus é um cara genial, né gente
Inventor dos século e das minúcia
Mesmo aquele momento, que só Deus sabe
até esse momento, Deus inventô

Genial, né gente
Êta passarinho que vôa!

Gente fica pensando... pensando...
vendo vento... orvindo a chuva...
e pensando na vida!
Gente que inventô as roda e os pára-raio...
Êh, gente!

Deus né gente, é bicho.

Julia Megracko, do passado.

As Estruturas Complexas

Sabe... acaba?

Vai, que um dia você acaba
todo mundo sabe
Nunca se sabe
vai que um dia você acaba

Notei a luz

...

Vai que um dia a rima acaba
nunca se sabe
Mas quem sabe
vai que antes você acaba

Noite
...
azul

Se você quiser, quem sabe
nun caa caba
Cana nu caba
se você quiser quem sabe

...
noite
Azul

Quando acaba ninguém sabe
Nunca acaba
Quando acaba
ninguém que acaba sabe

...
...
Azul-noite

Sabe... à noite acaba a luz

Pra Ela

Florzinha, sou Beija-flor
Quando o sol sair
e você se abrir
nascerá outro dia de amor

Tardinha, eu sou o Vento
sopro o rosto meigo
E que surpresa foi a minha!
Eu era brisa no seu beijo

Lua, eu sou o Céu
à meia-luz das estrelas
Sou o espaço que deseja
a sua luz em meu papel

Estrada, sou eu, Andarilho
que flutua sob seu encanto
e contente afaga o seu manto
O amor é nosso filho

O dia vai nascer cantando

À tristeza dos novos dias

Se eu pudesse
num urro murmúreo
um carinho eterno
ou brutal violência
cessar a desgraça humana...
que angustia o meu dia
que me faz beber, fumar...
parar de beber e fumar...
voltar a beber e fumar...
ainda mais
que me faz amar às cegas...
e no fim da esperança
ver tudo de volta ao normal
normal melancólico habitual
que me faz romper o limite
da compreensão metafísica
da charada universal
da composição ideológica
do homem incoerente
em seu próprio nascimento...

Se eu pudesse... ah!
que alegria sentiria!
e que amores viveria!
e que amigos teria!
e que céu seria
o céu da manhã
de cada dia!
e que noites seriam
todas as noites de amor!
e como seriam felizes
as estrelas que choram
no céu das minhas noites
de busca e perdição!

E a lua sorriria para todos
E o sol nasceria para todos
E a música soaria no universo
E o mar! Ah! o mar...
suas ondas cantariam
cada uma sua melodia
efêmero-infinita
E mesmo que uma ou outra
se precipitasse sobre a terra
entoando vigorosa cantoria
arrastando esperança e sofrimento
ainda assim a plenitude reinaria
porque teriam os homens
a certeza de um novo dia
encarnado nas andorinhas
nos tigres ou na ventania!

Se voando para sempre
através da fenda abissal do cânion
o mundo conhecesse a Maravilha...
Com o prazer de um mártir
eu o faria
Mas eu sei bem!
que quase nada adiantaria
porque o mundo logo se esqueceria
do meu gesto suicida
em prol da vida
e a tristeza novamente nasceria
assim como nasce na alma alegre
a mais inexplicável melancolia

Então nem tudo nem nada valeria
pra um homem só
perdido na arritmia
transformar-se em pó
pedindo a todos a luz que alumia
Então
à noite eu me confino e me calo
longe da matéria que sobre mim ruía
tão ruidosa que nem berrando eu falo

Então inerte eu sigo a minha vida
ou inerte a vida me segue
E comendo e cagando
amando e sofrendo
em tormentas de culpa ou em plenitudes que ninguém conhecia
nascendo e morrendo
mais não querendo
escapa alguma poesia...

Os mascotes de Midas, Jack London

Yin Yang

Quero tudo pra sempre
e nada pra nunca
Quero você de repente
e que se vá nunca

Meu templo
é uma noite funda
e um dia contente

De repente
mais que de repente
Imediato e Eternamente

Batismo

Presságios inventados pela loucura
Coração maltratado pela mentira
Sobre a Terra não há alma mais impura
que aquela que em símbolos delira

Roubada do íntimo a fé dos homens
Interceptado o seu voo para a vida
Apodrecida no segredo de um cofre
fede enterrada a sua sorte excedida

Ignorando ser ele mesmo a sua morte
acreditou acumular poderes para si
logrando conhecer o caminho do Coração

Fende no Saber de Deus um fundo corte
injetando nas artérias fluidas do Devir
a rígida mácula de premeditar Oração

Imaculada Oração

Pio de pássaro
Murmulho de rio
Mio de gato
Rumor de brasil

Trovão do céu
Marulho no ar
Breu coaxar
Cascavel

Sussurro de caatinga
Voz de prata luar
Sombra de cacto no estio

Murmúrio de mandinga
Preto no mato cantar
Risada de moça no cio

O fim do último homem

Os ossos estalam
o tempo passou
na escadaria
da casa velha
os vultos passam
na imaginação
envelhecida
da antiga canção
esquecida

E não há confidentes
E não há testemunhas
Não há vestígios de amor
e nem o ódio estremunha

Há o calor do frio
A esperança no Não
O copo fosco e vazio
Lenta e turva agitação

Fogo gelado no preto do Céu!

Até que
enfim
a pura Luz
na Escuridão

Lá do escuro da lua

O nosso mundo tem um caso
no lado escondido da rua
onde o lume é um resto vago
e os morcegos trissando avuam

Onde uns homens e uns gatos
passeiam por secretas vias
pobres, perdidos ou pelados
filhos largados do dia

Proibidos de fazer folia
fugiram pro denso da mata escura
Fizeram com a miséria magia
Feiticeiros de espécie pura

Prepararam danças e melodias
para o grande dia da sua soltura
E no eclipse que ao sol perdura
alumbraram chorando alegria

Diversão

Um dia
quis ser escritor
Preferia poesia
E o tempo passou

Outro dia
queria ser músico
Aprendi melodias...
O tempo era súbito

Mais pra frente
queria Cinema
E escrevi cenas
que o tempo desmente

Descontente, fui pra rua
E num clarão de lua cheia
lancei-me em doidas teias
E o tempo etéreo flutua

Me joguei no submundo
E dele fiz parte
Fiquei à parte
do tempo oriundo

Fugi pra estrada
em busca da noite
Estava encantada
Mas o tempo é açoite

Num último salto rolei na areia
Beijei o mar da praia nua
Caí no colo de uma sereia
Mas o tempo louco avua

Voltei para casa
e achei-a mudada
Era o tempo de estrada
É o tempo que foi

E depois de tudo
Fiquei como mudo
Como a noite calada
Triste moribundo

Pensei no futuro
Só vi o passado
Fiquei chateado
Um homem sem fundo
__________________

Então eu quis o presente
Tempo vivente e calejado
Repleto de ilusões nos atos
feitas fato dentro da gente

E agora eu sei, agora é lei!
Sem ilusões não há verdade
Toda a gente é feita de sonho
Imediato e sucessivo como a tarde
Que hora se alegra, mas hora se abate
com o mesmo som do cão que late
com o mesmo sol despencando no horizonte
com mais outra noite descendo gigante

E o segredo das ilusões é só um sonho
diferente do outro e depois mais um, medonho
que na noite macabra se transforma em mulher
que de mulher namorada vira amante
e de amante, estrela cadente
no abismo do céu

Mentira é perder-se numa só ilusão
Numa só ilusão de amante eterno
Numa só noite de bandido temido
Num só semblante de triste gemido
É passar a vida vestido do inferno
de toda a vida na mesma oração

Veja que a lua nunca fica sempre cheia

Mentira é cantar sempre a mesma canção
cansada e antiga emoção sem sangue nas veias

Chamado

E na sombra da noite contemplativa
os cães já sabiam
Uivaram e ganiram luas e luas
chamando os homens nas ruas
invocando coisa viva
Mas os homens dormiram
acostumados com a matilha
E quando acordaram
não havia dia

Não havia dia porque...
porque acordaram assustados
no meio da animosidade noturna
Ufa!, não era o fim do mundo
era só outro pesadelo
Mas ainda intrigados
na dura sombra cativa
os cães imploravam a vida...

Então o Sol iluminou as ruínas

E o dia aconteceu
contruindo mais ruínas
perturbando o sono dos gatos
que à noite intrigariam os cães
E o dia esperneou
nas filas satânicas dos bancos
perturbando o sono dos homens
e à noite chorariam as mães
E a tarde chegou
exalando preguiça nos cantos
perdendo a hora do ocaso
que traria o sossego dos sábios

Mas a tarde desabou
pesada e cansada da vida
e esperava inerte a sorte adormecida
que despertaria tranquila
na sua trilha perfeita e perdida
longe do errante caminho iluminado

E então os sábios levantariam
das suas macias covas discretas
e no novoeiro que se achegava
e protegia as almas apuradas
deixariam suas portas abertas
para saudar o final do descaso
que faz ganir a vida enraivecida

E junto com os cães desesperados
e também com os gatos suicidas
das sombras secretas das ruínas
na frente da fronteira abissal
anunciariam a eterna madrugada
que vem da vaga imaterial

Visões da última estrada

A arte se esconde
feito cascavel no cerrado
E o homem irrompe
grande idiota iluminado
no paraíso destelhado

Trote, homem, anda!
Besta abobada no Mato
Feio é ver que lhe espanta
o gemidinho noturno nato
E patético perde o tato

Olha bem, sacripanta!
Ouve as frases do cascalho
feito as ancas duma santa
lhe roçando o tom paspalho
Veneno não é chocalho!

Terrivelmente cadentes
– E é Terrível e Negro o manto
que abriga o dissidente –
E o Céu inteiro se adianta!
incinerando espíritos mancos

Experiência

Anda, pára e olha
Cansa, descansa e contempla
Parte, chega e conhece
Mata, gera e educa
Morre, ressuscita e existe
Mata, homem e arte
Fala, ouve e cala
Brinca, briga e ama

Antes, depois e agora

Saia!

Alguma coisa precisa sair de mim!
Será que é a vida?
São as sensações agudas?
Sou demasiado humano?
Aquele que não tem salvação?
Pontadas, dores, angústia
saiam de mim!
Medo
saia de mim!
Saiam, saiam...
Vão pro papel, vão...

Vão de Tudo
Saia da Mulher
Saia!

Alguma coisa precisa sair de nós!
Será que são as roupas?
Será que é a vida
que na verdade é a morte?
A morte precisa sair de nós?
(Hmm, boa opção)
Precisamos nascer!
Deus!, precisamos nascer
e você não contou!

Precisamos virar banana
Virar terra, virar verme
Virar suco
Precisamos virar música
Xangô ou borboleta
Podemos virar a poesia
das coisas
As vias das aves migratórias
Poderíamos virar o filme
da vida acabando
de nascer
da morte!
Pedíamos ter sorte
Os macacos têm sorte
Já os homens
cultivam o azar

Ôh, Deus, bem que podíamos nascer
Podíamos virar loucura
Podíamos ter nexo, não?!
Podíamos ser alguma coisa pura
Pelo amor!
Puta merda
podíamos virar...
Virar, virar, virar
Podíamos virar sexo!

O Pastor

Para o seu bem
vamos protegê-lo
lhe dar saúde
e abrigo

Pro seu neném
vamos dar escola
Daremos papinha
e brinquedos

Pro filho mais velho
A Universidade!
Uma boa carreira
e aposentadoria

Pra sua mulher
(não conte a ninguém)
muita saúde
e um belo traseiro!

Em troca, bom amigo,
você entrega a sua alma...
Adeus!

Semente Transgênica

Veja!

Seguro na mão
esta semente
Ela sou eu
antes de nascer!

Hoje ando meio louco
mas sei disfarçar
Um pouco diferente...
e discreto como poucos!

Gosto da nossa gente
não é lá tão má
Mas às vezes não poupo
de um enforcar!

É que às vezes
não sabem brincar
Sem senso de humor
não dá pra aguentar!

É muita gente
não posso cuidar
Me deixam doente!
chego a enjoar

Mas três coisas tenho em mente:
A família eu devo educar
Bons costumes devo ensinar
Pra enfim erguer um bom lar!

Hoje eu sou assim
porque da semente de mim
Deus fez o capim
pro rebanho pastar

A Ovelha Desgarrada

O pastor
de tanto contar ovelhas
adormeceu
e deixou Uma escapar

Na verdade
ficou foi bravo e sem pensar
prendeu as outras e foi atrás
da Sem-Par

Não pensava
em outra coisa
Perseguia a Maldita!
noite e dia

As presas
precisavam comer
beber, trepar
ou apenas
andar pra ver

Inquietaram-se
a ponto de pirar
e fugiram

E o pastor
Nia e doite
atrás da orrelha covia
confuso como a dor

E foi longe a bichinha
Aprendeu a caminhar sozinha
Mas o pastor, sem ideia na telha
só sabia procurar aquela pentelha!

Se não encontrasse
seria demitido

Então pôs-se preste
decidido
como todo bom discípulo
do Mestre

E tirando sangue
do chão de andar
caçou-a por inteiro

Em cada beco
e cada puteiro
“De sol a sol”
“De janeiro a janeiro”
Meteu até a cabeça dentro dum bueiro!

Até que enfim encontrou-a!
Alegre, em casa
dando prum carneiro

Ah!
Ficou vermelho!
de raiva!, parecia...
Na verdade
estava de pau duro

E, de magoado,
de desaforado
de impuro
de não sabia o quê!
assassinou a coitadinha
e levou para o patrão

"Boa ideia"
disse o patrão
"faça o mesmo com as outras que tentarem. Ah!, e hoje me traga uma Puta bem gostosa. Você sabe o meu gosto: uma ovelhinha, hein!... Se ela recusar, dê-lhe um carro"

Final do ciclo

Passei toda a noite
descobrindo e delirando
Entre surtos e poemas
tomava cada coice!...
Saborosos enfisemas
tremeluzindo e cantando

Não aguentava mais

e tinha ainda a roupa
pra estender no varal
das alucinações materiais
Arrastava os olhos assim
num transe exausto
E já nascia o Sol
pra esmagar o meu fim

Mas eis que o meu restante

vi estampado no firmamento
Voltei a ser só folha no vento

E reanimei tranquilo em sê-la

Na boca da Lua minguante
e no olho da sua Estrela

Extraterrestres

O Universo é infinito(?)
e ainda procuram a vida em outro planeta
É mais fato ter consigo
que no Infinito toda a vida tem estrela

Parem de procurar, homens
Os planetas estão cá
no nosso humilde pólen
Olhem sem duvidar

Atlântida está nos meus átomos
juro pela minha mãe da libido
que no esperma vive um álamo

Que é preciso viver o perigo
de perder-se em todos os cálculos
pra encontrar a equação do Infinito

Ode irregular

Eu não quero dormir
preciso viver!
É tão difícil acordar...
quero sonhar!

Da boca da noite vem a expiração
que me lança num delírio insone
Até afundar dormido no colchão
e embalar no vento das asas Açores

E espiar pela janela da Ilha
o Mar nebuloso no atol
A Lua amarela lá em rima
no pleno eclipse do Sol

É tão difícil acordar!
preciso viver...
Eu não quero dormir!
quero çonhar...

Reino da Liberdade

Desejo-te os sonhos que desejas
Desde os mais estranhos
risos que anseias
na estrada das tuas entranhas

Falácia!, o Rei não sonha ventos
E de tempos em tempos
tem um pesadelo
Falácia, o Rei não tem recreio

Cantarolemos, queridos fantasmas
a sorrir sob a bruma no atol
e a saudar maltratados marujos

E na multidão descontrolada
me chamas a voar em volta do Sol
a ecoar a luz sobre o som azul...

Informação

... e quiseram enfeitiçar os feiticeiros
Quiseram empobrecer os pobres
Tentaram escravizar os pedreiros
Caçoaram muito dos bons homens
Asfaltaram as longas estradas
Puseram no exército os marinheiros
e os libertos chamaram piratas
Ao viajante deram muitos nomes
Vagabundo, aventureiro, um errante
sem-destino, clandestino, passageiro...
E no instante de dizer as suas causas
fecharam a boca do indagante

Entretanto, em tom humilde
conduzo os fatos como um fio de cobre
a fim apenas de aos pouco nobres
anunciar que a farsa ruiu:

Porque os feiticeiros não são enfeitiçáveis
Porque os pobres descobriram soluções
Porque só os pedreiros podem erguer as casas
onde moram os mais sujos fanfarrões
Porque os bons homens aprenderam a dançar
nos passos virtuosos do satanás
e no balanço compassivo das religiões
Porque as estradas perdidas e misteriosas
continuam sem asfalto e perigosas
E o maior dos lobos marinheiros
nunca será na vida um militar
Será aquele que visitou os anciões
e que aprendeu verdades com os ladrões
nas últimas ilhas do fim do Mar
Vagamundo, portanto, um sem-lar!
Clandestino, um errante arruaceiro
Como o viajante na terra-sem-lei
- onde a sorte selou o seu Carma -
que ao voltar ensinou o próprio Rei

E quando o farsante apontou a sua arma
disseram "Desculpe, Senhor, eu errei!"
e em segredo já sabiam que a farsa
é o desastroso sofrimento do Ser

E satisfeitos desertaram dessa Barca
do futuro do passado do Amém
daquela náufraga Arca furada
que tantos farsantes trouxe pra gente...

E serenos, saltitantes ou sem-graça
com a graça da Noite e do Amanhecer
Fizeram do Instante a dura carcaça
que envolve a eterna razão de Viver

...

Há dias

Há dias que a gente sai de casa
e os carros tentam te atropelar
as motos tentam te deixar surdo
a polícia tenta te deixar mudo
o banco tenta te roubar
os trombadinhas tentam te deixar liso
os professores tentam te deixar burro
e os colegas tentam te convencer
que ficar burro favorece o riso

Há dias, meses e anos que isso acontece
aqui no Paraíso

Você!

Você!!!
que pensa em não querer saber da próxima palavra...
você vai pro inferno!

Mas, se você chegar na próxima palavra
vai ficar por aqui mesmo
indo pras próximas palavras
que querem dizer alguma coisa
que você não precisa ignorar...
porque se você ignorar
vai ser um ignorante...

O que a próxima palavra vai dizer é
você!!!
que zomba da agonia de um homem
que corre dos seus desejos
e chega em casa ofegante
suspira aliviado e impotente
senta no sofá e liga a tv
depois de um banho quente!
e masturba a sua mente
pros desejos se acalmarem
e quietinhos sangrarem
oprimidos e assustados
nas luzes histéricas de um filme ruim
que realiza todos os seus desejos
em um minuto e quarenta e sete segundos várias vezes durante duas horas e
[quase três
milhões de inescrupulosos golpes incomensuráveis de extraterrestres
[ultrassensuais nos inimigos russos de dimensões remoto-Ocultas
desferidos pelos atores
que nos bastidores
trepam muito
no trepa-trepa dos filhos
cafungam muito
de gripe colombiana
choram muito
de vazio de tudo
e depois fumam muitos
pra relaxar...

Você!!!
que é fã do Cazuza
e odeia devassos
Que adora o Torquato
e despreza os suicidas
Que venera o Einstein
e repele sujeitos esquisitos
Que não troca a cidade grande!
e manda passear os mendigos
Que quer montar na grana
e amaldiçoa os bandidos...

Você!!!
que montou na grana
e miguela migalhas
Você que tem a palavra
e fala jargões e mentira
Você que fabrica fábricas
de armas, de angústia, de vício
Você que aponta o revólver
você é pra inteligência um suplício!

Você que comprou uma ilha
e agora cobra as visitas
Você que comprou muitas milhas
de estradas infinitas
com o dinheiro afanado
das pessoas aflitas
Você que tapou a verdade
com a esquizofrenia!

Você que acredita que é livre
dando esmola pros seus escravos
Você uiva de desgosto no inferno rasgado
Você é o pior criminoso que existe!

Você deve ser, por Deus!, ignorado...

Adão e Eva

Os pais do ventre do nosso feto
não tinham a mesma estatura
nem a mesma curvatura
talvez tivessem até desafeto

Os seus filhos nasceram confusos
não sabiam quem eram ao certo
Fizeram do céu o inferno
Apossaram-se de todos os frutos

Um chamava a verdade de mentira
o outro chamava a mentira de saudade
e ficavam os dois numa bruta ansiedade

Quando o espelho das águas a eles se vira
constata espavorido a má realidade
Um era o Diabo e o outro o Curupira

11 de Setembro

- Pô, João, não faz assim com o seu irmão!
- Mas ele me deu um soco sem motivo!
- Tá vendo, Jorge, no que dá? Da próxima vez você pensa melhor antes de dar um soco no seu irmão.
- Mas ele chamou minha mãe de puta!
- João!!!
- Mas eu não...
- Calma!, gente, calma... não briguem, não leva a nada... E olha o preconceito!
- É verdade, Chico, você tem razão.
- É, Jorge, desculpa.
- Tudo bem, tudo bem... Desculpa também, João.
- É isso aí Chico, você é o cara! Nada de brigas! O que liga é a Paz.

Agora, tem uma coisa que o Jorge se esqueceu de dizer no calor dos eventos, mas que o narrador se lembrou, e ele não pode entrar na história pra contar: foi o Chico que disse pro Jorge que o João xingou a mãe do irmão, mas o João, quando sacaneia, nega.

Via Leitura

ho
men
tiras

Wallyson

Hoje no meu caminho
vi mulheres bonitas e corpos deformados
Nadei no mar de água e de petróleo
Vi o céu azul e o rosto pálido
Vi uma donzela dando à luz num velório

Hoje, no meu caminho,
Dei muita risada e vi muita tristeza
Os olhos daquela criança
não me saem da cabeça
senti arrepios de ponta de lança

Hoje, no meio do meu caminho,
topei com o cadáver de uma velha ideia
Eram os restos mortais de um sanduíche
arremessado pela janela do automóvel
que um louco tentava juntar
com um sorriso na boca
e lágrimas nos olhos

Voltando para casa tendo comigo
do outro lado avistei um amigo
mas estranhamente não estava lá
Procurei dentro da sua pele, dos olhos
mas encontrei apenas carne e ossos
e um espírito vagando em outro lugar

Bom, agora que cheguei em casa
não há como esconder de vocês
o que vi nos lugares por onde andei
Eu mesmo mudei os meus passos
estão mais firmes e largos
e aonde não já mais vão sei
... e quando descubro, tropeço
É um tal de quem me esqueço
... de quem há muito eu me despeço
Nem a mim mesmo mais mereço
saí pra ver e era outro no regresso...

Wallyson, onde está você?

De repente, não mais que...

Tive um dia maravilhoso!
As ideias brilhavam
As mulheres cantavam
Soprava um ventinho gostoso!

Andei pelas luas
conheci uma Dama
E um pretendente a meu Amigo!

Decidi pela piedade que clama!
e tirei do caldo da rua um mendigo
Dei-lhe comida e ofereci abrigo
Já se via na sua boca o sorriso
da sorte nascida da lama

Começo da tarde, andei pensativo
... coisas que logo perderam a voz
Mas fiz os deveres meditativo
uma coisa de cada vez
até estar em plena paz de espírito
Sentia-me leve como plana o albatroz
Senti enfim que não pensava em mais nada

Findei o trabalho e fui embora pra casa
no pôr do sol de outono na calçada
Perdoaria até o meu pior algoz
nessa hora gentil e iluminada!
O mundo parecia inesperadamente belo
tão longe da morte e do perigo

Eis então que fez-se o elo!
O encontro das águas no sertão do infinito
Obra de arte a sair do prelo

Na travessia da última rua
já no nascimento da terceira lua
com os olhos serenos e tranquilos
vi o encontro do Céu e do Inferno

Foi um ônibus que estraçalhou um velho

Anarcohierarquia

Toque os tambores o que tiver ritmo
Tome a palavra quem tiver o que dizer
E que cale quem souber quando

Seja carrasco o que for justo
Faça sexo o que tiver vontade
Que ame quem for o feiticeiro

Beba o primeiro gole o que tiver mais sede!
Tome o primeiro susto o mais desprevenido...
(Arranquem as roupas dos charlatões!!)
Libertem-se os suicidas das cadeias de carbono
Do pão, a última migalha fica pro mais rico!

Que seja o Rei o que tiver colhões
mesmo que dure três minutos no trono!

Cães e gatos

Está claro:
quem não gosta de gatos é moralista
tem inveja de liberdade
(mesmo que desconte tudo nos gatos
e leve vida social, leve...)
enxota a pontapés os vagabundos
irrita-se com seus próprios tropeções
raríssimos e patéticos
Esse tipo veste roupa de felino
e manifesta-se qual um rato
alimentando-se, sovina,
de sua vistosa e transgênica maçã
infestada por dentro de vermes invisíveis;

quem não gosta de cães é reacionário
escarnece dos coitados
suplicantes e lamentosos pela noite
Não gosta de trapalhadas
indiscretas e inocentes qual um bêbado
Sentencia implacável a violência
que roga, por Deus!, por Liberdade
(Liberdade Concedida só aos mendigos
vira-latas e orgulhosos comunistas --
porque todo mendigo é comunista)
É o tipo que é incapaz de ver
nos olhos da raiva um marejar solitário
É o tipo que ouve um lamento e pensa
"Otário"

Mas o que eu acho muito engraçado mesmo
eu que sou um bicho completamente louco
uma ameaça mesmo pra gente desprevenida
é que nas minhas tardes de bicho abominável
conheci muitos cães e gatos vadiando lado a lado
espreguiçando ridiculamente nas calçadas das Comunidades