3.4.13

Nota sobre o entrevidas

            É que desse jeito não tem o que fazer. Eu sei, João, mas é que se era não dá. E depois acontece que sem daquele jeito, tem uma árvore e um pé de cabra; uma pêra e uma nave. Tente três vezes, quem sabe ele reza. Amanhã o milho vai secar, e a terra sêca não dura. Não, dura como o inverno: sem água, sem sol, sem céu. Ah, João, não tinha problema. É que cansa tanto que às vezes chove. Tinha uma galinha manca, um viveiro, um teto baixo. Umas minhocas circulavam por ali, mas elas não sabiam atravessar a rua.
            Quando escureceu, não quis saber de machado, virou as crianças pra cama e morreu. Acordou cedo, mas não era não, era ainda o João. Saiu com o sapato na mão. Quando voltou, jogou o feijão no colchão e sorriu: caiu um avião. Não!? Agora não, né? Antes era sim, agora não. Agora, se for pra nada, não adianta fazer faxina, as horas não aguentam. João sentou na cadeira e disse: patrão, caiu outro avião, vinte anos e três vezes depois. Agora eles não sabiam se recolhiam ovos ou chamavam a tia do algodão doce. Recolheram os ossos! Tolos.
            Mas não adianta, porque fugir é o sonho das lebres entre o começo e o fim de março. Não queria que terminasse assim, batendo a cabeça nos degraus da escada líqüida. Tem um monte de gás por aí, desliga antes de dormir porque não tem ninguém em volta para apagar o incêndio das massas e dos papéis que estavam em cima da mesa ontem. Eles dormiram cedo; esqueceram cedo da coruja espiando entre os galhos da árvore e o quarto quadrado de vidro superior direito da janela na visão da coruja, na frente da lua, na visão do homem dormindo, na noite clara de azul escuro.
            Vamos, querida, vamos voar.

Enviado por Pablo Megracko, do abismo.

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