3.4.13

Soulstício

I - O Sonho

Essa noite, eu tive um sonho
no meu sonho tinha medo
um revólver e muito pânico

Os meus amigos estavam lá
do meu lado, me ajudando
E por um incrível esforço
tudo saiu como eu queria
na medida do contexto

No meu sonho não tinha rimas
não tinha harmonia nem música
Porque os dias que seguem
na cidade debilmentada
não têm rimas, harmonia nem música

II - A Crítica

Pobre espírito, homem frouxo
Vim lhe cuspir a sua covardia
Vocês são muitos, e muito pouco
O seu crime não tem poesia

Você está morto, sabia?
E a sua história acaba como uma bomba
A sua matéria prolifera como as pombas
Suja, parasitária e fugidia

Corre!
Porque atrás vem o revólver
que você construiu

Corre!
Mas corre de si mesmo
porque o seu carro
atropelou o seu filho

Pára, infeliz!
Não passa em cima outra vez...
Olha só o que você fez!
É o terror debaixo do nariz

III - O Despertar

E agora acordado quero esquecer
quero esquecer a cidade e o pânico
Quero viajar para dentro e renascer
Quero merecer o corpo momentâneo

Eles sabiam que eu sonharia tristeza
Eles sabiam que eu dormiria abatido
Que eu recuaria montado no perigo
Que eu esqueceria da natureza

É isso que eles querem de mim
Que eu fique paranóico e sem crença
Que eu veja eternamente o fim

Mas eu não me entrego fácil assim
pra polícia, pro dinheiro e pra doença
Minha crença é o presente sem fim

IV - O Soulstício

Agora, daqui, com o coração
vejo o sol fazer o seu trabalho
Vejo a água verter vermelha
abaixo do vôo dos pássaros
envoltos na harmonia da canção

Daqui, homens,
vejo as centelhas da vida
como fogos de artifício
sob o céu que envolve
sobre a terra que abate
entre as vagas do tempo
pelas horas do espaço
resumidas num átimo de eternidade

Daqui, homem, é uma só verdade
É a verdade que você não quer
É a verdade que não existe
É a verdade que não pensa
É a verdade que esquece

É a cidade que clareia
É o sol que incendeia
É a vida que resiste
é o coração que tenta
e à tardinha escurece

Daqui, do instante que cresce,
vejo a vida que acontece
explodindo em grande clarão
e viajando pelo espaço
como luz na escuridão
sem ombro ou regaço
na matéria do vácuo

Aqui, homem, ouve!
é música dos pássaros
é o ritmo dos passos
do universo ancião

Agora encontro me homem!
Mas não só homem...
Descubro me homem
em tempo suspenso
entre o começo e o fim
de uma só batida
Uma só batida de asa de pássaro!
no silêncio do tempo intermediário
na tensão em que tudo se acaba
e na espera de que tudo renasça

Aqui estou, homem!
entre a última e a nata
batida do coração

Solstício de verão

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