3.4.13

Coisa de Gente Grande

Quando nasci
e um pouco cresci
e olhei o mundo
tudo podia imaginar:
Voar
A velocidade
A luz
A casa dos vampiros
que ouviam o vento
A mágica
O tempo
A noite
entre árvores
nas janelas
Poesia
A lua
no universo
de estrelas
Estrelas
elas
meus versos

Agora,
o que eu não esperava
debaixo das estrelas
do tempo
da mágica
do vento
do universo negro
era que
dentro dos meus versos
haveria inimigos
da minha ingenuidade
Que entrariam
no meu dia a dia
e envenenariam
a minha poesia
com gestos desconexos
e imaginação fugidia
Detentores
da mais vigorosa
ignorância
que se escondia
sob os meus olhos
de criança
E diziam que isso
era coisa de adulto
coisa do futuro
futuro...

E agora, cavalheiros
agora tudo é passado
envelheci cinquenta anos
em vinte e quatro
E descobri a coisa
que diriam os anos
do meu espaço:

Aquela coisa de adulto
que me traria o futuro
depois que caíssem as estrelas
e a lua nascesse sinistra
e o vento tornasse de susto
e a mágica surgisse negra
e o universo explodisse em cálculos
e os vampiros revelassem os homens...

Aquela coisa que me diriam os anos
Aquele homem que virou vampiro
na cidade pálida pelos cantos
Que escondia nos seus suspiros
a frustração enrustida de uma criança
como um rio sem curso
que deixou de ser criança pra virar adulto
sem o recurso do desejo
morto num desesperado beijo...

Aquela coisa de criança que viu fantasma
despertou falecida na calçada
Foi aquele negócio de gente grande
que se julgava mais que a noite calada...

E depois de arrependida
facada na esperança
aquela coisa de gente grande
que na verdade sem segredo
morre de medo de escuro
e de travessura de moribundo
revelou-se

rancorosa
e adulta criança
a desferir contra o mundo
a sua reação contida
de discreta e violenta
vingança

Um comentário:

  1. Anônimo23:00

    Muito bom! Meu retrato dos 22 anos...=/
    Parabéns pelo talento!

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