3.4.13

À tristeza dos novos dias

Se eu pudesse
num urro murmúreo
um carinho eterno
ou brutal violência
cessar a desgraça humana...
que angustia o meu dia
que me faz beber, fumar...
parar de beber e fumar...
voltar a beber e fumar...
ainda mais
que me faz amar às cegas...
e no fim da esperança
ver tudo de volta ao normal
normal melancólico habitual
que me faz romper o limite
da compreensão metafísica
da charada universal
da composição ideológica
do homem incoerente
em seu próprio nascimento...

Se eu pudesse... ah!
que alegria sentiria!
e que amores viveria!
e que amigos teria!
e que céu seria
o céu da manhã
de cada dia!
e que noites seriam
todas as noites de amor!
e como seriam felizes
as estrelas que choram
no céu das minhas noites
de busca e perdição!

E a lua sorriria para todos
E o sol nasceria para todos
E a música soaria no universo
E o mar! Ah! o mar...
suas ondas cantariam
cada uma sua melodia
efêmero-infinita
E mesmo que uma ou outra
se precipitasse sobre a terra
entoando vigorosa cantoria
arrastando esperança e sofrimento
ainda assim a plenitude reinaria
porque teriam os homens
a certeza de um novo dia
encarnado nas andorinhas
nos tigres ou na ventania!

Se voando para sempre
através da fenda abissal do cânion
o mundo conhecesse a Maravilha...
Com o prazer de um mártir
eu o faria
Mas eu sei bem!
que quase nada adiantaria
porque o mundo logo se esqueceria
do meu gesto suicida
em prol da vida
e a tristeza novamente nasceria
assim como nasce na alma alegre
a mais inexplicável melancolia

Então nem tudo nem nada valeria
pra um homem só
perdido na arritmia
transformar-se em pó
pedindo a todos a luz que alumia
Então
à noite eu me confino e me calo
longe da matéria que sobre mim ruía
tão ruidosa que nem berrando eu falo

Então inerte eu sigo a minha vida
ou inerte a vida me segue
E comendo e cagando
amando e sofrendo
em tormentas de culpa ou em plenitudes que ninguém conhecia
nascendo e morrendo
mais não querendo
escapa alguma poesia...

Os mascotes de Midas, Jack London

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